quarta-feira, 25 de julho de 2007

Entrevista do autor ao site Aplauso Brasil

Dib Carneiro Neto, autor da peça Salmo 91, adaptação de Estação Carandiru, do doutor Drauzio Varella concedeu entrevista exclusiva a Michel Fernandes, do site Aplauso Brasil, sobre o ocorrido na sessão conturbada de 21 de julho e sobre a ideologia da peça.



Michel Fernandes - Quando vocês tomaram conhecimento das acusações de Karina Florido Rodrigues (ex-assessora do coronel Ubiratan Guimarães, condenado por ser o comandante da invasão dos PMs que redundou no chamado “massacre do Carandiru”) de que a peça fazia apologia ao crime, qual o pensamento imediato sobre os escritos dela?
Dib Carneiro Neto - O pensamento imediato foi: como alguém pode acusar a peça de algo, sem ter ido ver antes?



Michel Fernandes - Salmo 91 não é a primeira adaptação a vir a público, embora date de 1999, por que você considera que, justamente, essa adaptação seja alvo de tamanha perplexidade dessa senhora?
Dib Carneiro Neto - A força do teatro é uma coisa impressionante. O formato teatral, a contundência da palavra no palco, as artimanhas da dramaturgia. Tudo isso, quando bem feito, consegue ser de uma eloqüência imbatível diante de todas as outras manifestações de arte.



Michel Fernandes - Qual a principal reflexão você deseja fomentar com Salmo 91?
Dib Carneiro Neto - Minha intenção com a peça é alertar para os perigos e as armadilhas de se confundir JUSTIÇA com VINGANÇA. É legítimo sentir raiva de bandidos, assassinos, ladrões, é legítimo querer clamar por justiça. Mas o revide usando as mesmas armas, ou seja, igualando-nos a eles em barbárie, é uma atitude desumana. A peça foi escrita de tal forma a chacoalhar dentro de cada pessoa da platéia para esses perigos de arbitrariedade. Os presidiários retratados são criminosos inescrupulosos, mas pela constituição têm direitos, não são bichos.



Michel Fernandes - Por ter ocupado um cargo próximo ao coronel que comandou a entrada dos PMs no Carandiru, como você analisa essa atitude passional de dona Karina e qual o limite dos direitos humanos?

Dib Carneiro Neto - Ela tem todo direito de pensar o que quiser, de se manifestar, tanto que o fez, num espaço democrático aberto pelo Sesc de forma nobre. Temos de tirar o chapéu para o Sesc, pela nobreza de ter aberto o debate da equipe com os convidados de dona Karina.



Michel Fernandes - A violência praticada pelos presidiários justifica a violência dos PMs?

Dib Carneiro Neto - Repito: Eles são criminosos inescrupulosos, mas pela constituição têm direitos, não são bichos.



Michel Fernandes - Atos como esse assemelham-se ao cerceamento da livre expressão artística por um pensamento retrógrado da censura?

Dib Carneiro Neto - Sim. É inadmissível julgar sem assistir. Mas ali ninguém tentou impedir nada, o grupo apenas queria se expressar e debater.



Michel Fernandes - A peça faz apologia ao crime? Por quê?

Dib Carneiro Neto - Claro que não. A peça apresenta os personagens enclausurados, com suas peculiaridades, suas manias, seus dramas particulares, justamente para mostrar que eles NÃO são (ou não eram) farinha do mesmo saco, que os presidiários não são todos bandidos que cometeram crimes do mesmo grau. Eles passaram por julgamentos, as penas são diferenciadas, o grau de periculosidade de cada um é bem diferente. A idéia da peça é fazer todo mundo pensar nisso, em vez de desejar que todos morram. O medo real, verdadeiro e justificado que a gente tem hoje em dia de ser vítima de um deles numa cidade horrível como São Paulo não pode embotar nosso lado humanista, nossa capacidade de raciocinar contra as atrocidades.



Michel Fernandes - Conforme citação de dona Karina do trecho do salmo 91, a peça diz que os presos escaparão das mazelas. O que você pensa sobre isso?

Dib Carneiro Neto - Ela só escreveu isso porque não tinha visto ainda a peça. Tenho certeza que agora ela entendeu o motivo de a peça ter esse nome. Ninguém nunca pensou em passar a mensagem de que os bandidos devem sempre sair livres das mazelas, de jeito nenhum. Isso sim seria apologia ao crime. Quem for ver a peça vai entender que é uma imagem bem poética até, uma metáfora que é bem fiel a uma das histórias do livro do dr. Dráuzio Varella. Não conto para não estragar a surpresa.



Michel Fernandes - Como vocês consideraram esse tipo de ataque?
Dib Carneiro Neto - Discussões são saudáveis para a democracia. Mas truculência não leva a nada. Que venham mais pessoas querendo debater, discutir, refletir, pensar e repensar.

4 comentários:

Macuco Cheiroso disse...

Concordo plenamente com a Senhora Karina e mais, acho que pessoas que defendem bandidos deveriam ter seus direitos de cidadão cassados, não podendo mais acionar a justiça ou a polícia em caso algum.

justiceiro disse...

estou com vc carina , como se la so tiuvesse santos , salve cell hubirata um homem de carater

Marcelo disse...

Acho no mínimo interessante que pessoas ligadas ao Deputado Ubiratan se manifestem.

É a arte cumprindo sua função democrática de reflexão, ainda que haja posições ideologicamente distintas na interpretação de fatos e realidades.
Parabéns por promover este debate. Abraços Marcelo

Samuel disse...

Vai se ferrar Karina, faça uma versão da policia então. Se tivermos que matar todos os safados que existe não sobraria 1 ser humano vivo. Portanto a violência da policia não é justificada.