domingo, 4 de novembro de 2007

111 NOMES OU "I.M.L.: VIAGEM AO INFERNO"

"Cento e onze é a puta que te pariu! Foi muito mais que cairam seu viado engomadinho! Cento e onze. Cento e onze! Cento e onze! No cu filhos da puta!"
Eu Dadá, Euclides da Cunha, sobrevivente atormentado do massacre cantei/chorei/falei isso tantas e tontas vezes na abertura da peça SALMO 91.
Por isso, neste ano em que se completam 15 anos do massacre do carandiru, quando me perguntaram na entrevista para antologia pessoal do jornal Estado de São Paulo, mandei a relação que está no título ai embaixo com 111 nomes, mas não sei porque a lista foi limada na edição. São nomes de atores que conheço. Todos eu vi representar, todos acompanho, bem ou mal.
Me inspirei pra responder assim com essa lista de nomes, numa foto que vi, e vejo novamente, no jornal da Tarde (foto de Epitácio Pessoa/AE) de 5 de outubro de 1992, na matéria IML: VIAGEM AO INFERNO do jornalista Valdir Sanches. Está lá a foto: uma mãe corre o dedo pela lista de mortos no massacre, pregada com fita crepe nas paredes do IML. Uma lista enorme, datilografada com nomes, sobrenomes, filiação: dá pra ver dois ferreira, deve ter conceição também.

A mãe percorre com a identidade aquela lista interminável, de letrinhas pequinininhas, procurando um nome. Está com a boca arreganhada de choro desesperado, de grito, de dor, de dar dó. O editor ainda fez um recorte do dedo dela na foto passando por cima do papel datilografado. Ai, meu Deus, que dor!
Pegou o momento exato onde o medo vence a esperança.
"Bosta mãe, que porra é essa de SALMO 91?"

Um comentário:

Marcelo Fonseca disse...

Os outros 111 mortos do teatro com essa política ecludente que teimam em dizer que é para todos. O èpico em detrimento do dramático está sufocando e chacinando artistas. Como na vida, acompanhado essa analogia. A violência não é justificável por nenhuma boa causa, seja ela violência intelecutal ou política. O teatro agride. Mas agride como Nelson Rodrigues disse " Teatro não é guaraná". Agride pela obra, não seus iguais.
E que dúvida teríamos que os 111 nomes seriam cortados num jornal? Será e sempre foi.
O importante é que a foto seja boa... Não que eu ache isso importante.
Completando a entrevista do Pascoal da Conceição, todos leram a da Fernanda Montenegro na página anterior? Alguém tem motivo para negá-lá?