sexta-feira, 12 de outubro de 2007
PAULO AUTRAN
Hoje dia 12 de outubro de 2007, dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, morre as 4 horas da tarde Paulo Autran.
No filme do Glauber Rocha, vi ele virado no transe do ditador histérico, higienizador, católico, cabelos ao vento, cruz na mão, glauberiano, condenando o povo brasileiro aos porões da ditadura militar. Paulo Autran com coragem ligou pra eternidade seu prestigio de ator já consagrado ao novo cinema brasileiro e nas mãos de Glauber Rocha, no transe da terra, corajosamente esteve ao lado dos muitos atores dessa luta que furaram com sua ação libertária os muros da ditadura, e como pontas de lança atravessaram a noite terrível de pesadelos tirânicos, torturantes, sangrentos, policiais, que fez a América Latina sentir o gosto dos piores momentos da des-humanidade.
SALMO 91
Paulo Autran assistiu a pré estréia de SALMO 91.
Quando terminou foi até o camarim cumprimentar os atores. Tinha saido escondido do hospital e foi ver a peça inspirada na obra do seu médico, Drauzio Varella.
Estava falante, de olhos vivos, úmidos, massacrado, indignado e feliz. Não me lembro exatamente o que ele disse, eu estava como ele, por ele, mimetizando ele. Sei que ele estava honrado, parceiro do teatro que não foge a sua responsabilidade humana.
Dias depois quando a assessora do coronel do massacre ameaçou impedir a continuidade da peça com sua acusaçAO DE APOLOGIA AO CRIME, E FOI PRO ENFRENTAMENTO ASSISTIR NA PRIMEIRA FILA EM COMITIVA A APRESENTAÇÃO DA PEÇA, MESMO QUE A GENTE NÃO SOUBESSE, ELE ESTAVA COM CERTEZA POR TRás DA NOSSA FORÇA PRA VENCER AQUELE MOMENTO, com seu exemplo de ator que não foge de cena.
A próxima vez que fizermos SALMO 91 vamos oferecer pro Paulo Autran.
MERDA!
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
QUARESMA
Por 40 dias SALMO 91 não será apresentado.
A última apresentação aconteceu dia 30 de setembro no SESC Santo André.
Agora, volta a ser apresentado em novembro numa pequena viagem pelo interior de São Paulo, mais uma vez pelo SESC.
Até lá nos retiramos.
Será uma quaresma.
Um tempo no deserto.
A última apresentação aconteceu dia 30 de setembro no SESC Santo André.
Agora, volta a ser apresentado em novembro numa pequena viagem pelo interior de São Paulo, mais uma vez pelo SESC.
Até lá nos retiramos.
Será uma quaresma.
Um tempo no deserto.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
FOLHA EDUCAÇÃO
MANDEI ESTE E-MAIL PARA A FOLHA EDUCAÇÃO QUE HOJE (2 DE OUTUBRO) FAZ UM QUESTIONÁRIO/VESTIBULAR SOBRE O MASSACRE:
PARABÉNS POR NÃO DEIXAR EM BRANCO A DATA DE HOJE.
FALA DE ADORNO SOBRE AUSCHWITZ
"A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação."
EM SE TRATANDO DE BRASIL, DE MASSACRES (CARANDIRU, CANDELÁRIA, CANUDOS, VIGARIO GERAL, CARAJÁS, ...)
A FALA ARREPIA DE REALIDADE.
PASCOAL DA CONCEIÇÃO
ATOR
PS. VOCES NÃO CITARAM A PEÇA DE DIB CARNEIRO NETO "SALMO 91" QUE FOI AMEAÇADA DE SER PROCESSADA COMO APOLOGIA AO CRIME PELA ASSESSORA DO CORONEL UBIRATAN GUIMARÃES, MAS ISSO É UMA OUTRA HISTÓRIA.
ESTÃO NO BLOG DA PEÇA:
salmocarandiru@blogspot.com.br
PARABÉNS POR NÃO DEIXAR EM BRANCO A DATA DE HOJE.
FALA DE ADORNO SOBRE AUSCHWITZ
"A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação."
EM SE TRATANDO DE BRASIL, DE MASSACRES (CARANDIRU, CANDELÁRIA, CANUDOS, VIGARIO GERAL, CARAJÁS, ...)
A FALA ARREPIA DE REALIDADE.
PASCOAL DA CONCEIÇÃO
ATOR
PS. VOCES NÃO CITARAM A PEÇA DE DIB CARNEIRO NETO "SALMO 91" QUE FOI AMEAÇADA DE SER PROCESSADA COMO APOLOGIA AO CRIME PELA ASSESSORA DO CORONEL UBIRATAN GUIMARÃES, MAS ISSO É UMA OUTRA HISTÓRIA.
ESTÃO NO BLOG DA PEÇA:
salmocarandiru@blogspot.com.br
MERDA
2 DE OUTUBRO DE 1992
CARANDIRU
DIA NORMAL. NORMAL?
TINHA ATÉ FUTEBOL. FUTEBOL?
"FLEURY E SUA GANGUE VÃO NADAR NUMA PISCINA DE SANGUE"
VOU FICAR ASSIM OUVINDO RACIONAIS E PENSANDO PENSANDO PENSANDO
CARANDIRU
DIA NORMAL. NORMAL?
TINHA ATÉ FUTEBOL. FUTEBOL?
"FLEURY E SUA GANGUE VÃO NADAR NUMA PISCINA DE SANGUE"
VOU FICAR ASSIM OUVINDO RACIONAIS E PENSANDO PENSANDO PENSANDO
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
VIOLÊNCIA NÃO
2 DE OUTUBRO FOI ESCOLHIDO PELA ONU COMO O DIA DA NÃO VIOLÊNCIA PORQUE ESTE É O DIA DO NASCIMENTO DO PACIFISTA GHANDI,
2 DE OUTUBRO, NÃO ESQUEÇAM, É O DIA EM QUE O MASSACRE DO CARANDIRU COMPLETA 15 ANOS.
Theodor Adorno
"Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador."
2 DE OUTUBRO, NÃO ESQUEÇAM, É O DIA EM QUE O MASSACRE DO CARANDIRU COMPLETA 15 ANOS.
Theodor Adorno
"Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador."
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
ENTREVISTA
Primeiramente, PARABÉNS pela apresentação de ontem, não tenho nem palavras para descrever, é emocionante, simplesmente SENSACIONAL.
Segundo, falei com você durante a semana por telefone para marcar uma entrevista, lembra? Ontem no final da apresentação de Salmo 91, também, conversei com você e fiquei de mandar as questões.
Bem, aí estão, espero que você possa me responder.
1. Como funcionou o processo de criação, os ensaios? Há aqui no blog um tópico chamado CARENCIA E NECESSIDADE que fala sobre os objetos e um outro chamado PREPARAÇÃO CORPORAL, os dois em julho que falam sobre isso.
2. Como foi a primeira apresentação? Como você se sentiu? E como você sentiu seus parceiros de cena e o público?
Já bem antes da estréia propriamente dita, já haviamos feito algumas. na semana que antecedeu a estréia no SESC, passamos uma semana inteira de terça a segunda dentro do SESC. Então quando fizemos a estréia já tínhamos "estreado" pelo menos umas cinco vezes. Embora afogados pela emoção da estréia creio que conseguimos executar a partitura proposta pelo diretor com muita disciplina, o que rendeu boas apresentações, principalmente por causa da seriedade do assunto que estávamos tratando ali no Sesc Santana, terreno vizinho do Carandiru, palco do massacre, nesse ano de 2007, exatos quinze anos depois.
Quanto ao que eu senti, cuidei o mais possível para realizar minhas ações como ator sem ceder a frivolidades, besteiras. Lembro que no dia da estréia, durante a tarde, fui visitar o local onde por décadas funcionou o presídio, lá na Rua Cruzeiro do Sul, Estação Carandiru do metrô, onde é hoje o Parque da Juventude. Tudo derrubado, uma arquitetura maquiada tomou conta de tudo. Foram derrubados os edifícios todos, foi feita uma cirurgia para eliminar da paisagem qualquer vestígio dessa ferida da sociedade civilizada. Atravessei o Rio Carandiru, que passa entre o presídio feminino e o Carandiru, e colhi algumas flores selvagens que cresceram no terreno onde correu o sangue do massacre e levei para o camarim. Ficaram ali na primeira semana. Pensei muito nisso durante todo o espetáculo.
Quanto aos parceiros de cena e o público, para não me estender muito, eu acho que compartilhar a criação diária do espetáculo, porque ele é feito e logo depois precisa-se fazer tudo de novo, enfim, compartilhar a cena faz-nos obrigatoriamente ter de enfrentar nossas limitações e medos. Há dias maravilhosos em que nos sentimos poderosos, porém no dia seguinte muitas vezes a cena é tão fraca, tão sofrível, tão terrível, que é como se o espetáculo nos recolocasse no nosso devido lugar. Todos nós, atores, assistentes, diretor, todos, compartilhamos dia a dia esse fazer e refazer, alegrias e tristezas, vitórias, vitórias e muitas, inúmeras derrotas.
Nada muito diferente do que se diz o que é a vida.
3. Como é participar de uma peça com histórias tão intrigantes e emocionantes como as de Salmo 91.
O salmo 91 entre outras coisas diz assim (e isso está na peça) "mil cairão a teu lado e dez mil a tua direita mas tu não serás atingido, nada chegará a tua tenda, etc, etc". No começo, quando li isso, tinha certeza de que EU era esse "um", EU era o que sobra, o salvo, o vivo, o cara que vai ver tudo cair e morrer a tua direita e não ser atingido por nada, lá dentro da sua tenda. Mas a peça e a criação artística que a envolveu, teve a ventura de revelar que o lugar da gente pode se também no meio de mil, dez mil, milhões. Então eu e você e todo mundo não somos somente esse "um", que sobra, somos todos. Nós nos "achamos", cremos que nada vai tocar na nossa "pessoa", nosso egoísmo ouve o canto dessa sereia enganosa que nos distancia da compaixão com a vida dos nossos semelhantes e nos mantem salvos dentro da nossa "tendinha". Não é nada disso. Quanto as histórias, são tantas, tantas vidas perto e longe da gente, são muito mais que dez, mil, milhões, são bilhões de histórias, cada cabeça uma sentença. E no teatro isso emociona tanto porque o teatro ama o homem, ama os seres, as coisas, a vida. Teatro não tem nada a ver com esse desprezo que trata gente como conta ou porcentagem ou como mercadoria. Não dá nem pra explicar esse tipo de coisa, que não é de se explicar.
4. Como é interpretar o DaDá?
O Dadá somos nós: os sobreviventes, sobreviventes dos horrores da vida, da ditadura militar brasileira, da bomba de Hiroschima, do massacre da Candelária, dos milhões que morrem assassinados, dos venenos da poluição, dos nossos desesperos, a lista não tem fim, mas ser sobrevivente é mais que tudo ser testemunha para todas as gerações da vitória da vida sobre a morte e aceitar a obrigação humana de expressar isso através dos meios que tiver a seu alcance. É não trair nunca a expectativa de vida dos que morreram antes de nós.
e o Veio Valdo, personagens tão distintos ?O Véio Valdo é o mais velho personagem preso no cárcere chamado Terra. Está preso aqui enquanto as estrelas dos puteiros estelares rrrrrrrrebolam suas bundas de parar a feira. É personagem mítico, interno, enclausurado, solitário da solitária, passou pelos 120 dias de Sodoma e Gomorra oferecidos pela crueldade dos "home", que ele levou no bico comendo sua própria merda. É o Sem-Nada. Sem-Ceu, Sem-Sol, Sem-Ar, Sem-Luz, Sem-Deus-Nem-Satanás. é um Sem-Nada.
Quais as principais diferenças entre eles ? Dentro da prisão não temos diferenças. Afinal estamos todos sobre o mesmo denominador comum. Nada diferente do que estamos vivendo aqui no planeta.
Qual é mais complicado de interpretar ?
Lembrei duma musica do Jorge Mautner: "Na matemática do meu desejo eu sempre quero mais um, mais um, mais um beijo". Complicado como uma conta sem fim de interpretar e solucionar. Daria um teorema falar sobre isso. É como o desejo de mais um mais um beijo. Mas vai virar um livro esta entrevista...
E qual você gosta mais?Já responderam isso antes de mim: gosto de todos.
5. O que mais te impressionou na adaptação de Dib Carneiro ? A fluência e a ligação de uma coisa e outra que a peça tem. O Colar de pérolas que é a ligação de uma cena a outra. É um relógio, tudo ligado, entendido, funcionando. TRepare: Por exemplo, a briga estopim do massacre começou no beco lazarento da rua dez, a peça tem dez personagens, noves fora 1. E se fosse um? Cada celula que você quiser analisar, estudar, pode confiar, ir pro texto que a resposta está lá. Isso é o que se chama de dramaturgia ou a maquinaria, a máquina que faz a peça andar, muito próximo daquilo a que os alquimistas chamam de "moto perpétuo", a identificação com o movimento que mundo faz antes de tudo e de todos. Não é surpreendente?
E na direção de Gabriel Villlela?Já falei isso várias vezes e vou repetir: me impressiona a inteligência, a cultura e a sutileza que com toda firmeza o Gabriel imprime no trabalho. Algumas vezes resisti, duvidei mas tive que ceder às evidências científicas prodigiosas da sua intuição. Ele não é besta nem nada, não fica a dever pra ninguém, a nenhum criador teatral do planeta e nos fez grandes junto com a sua arte. Ele nos elogia muito, decerto fizemos por receber esses elogios mas o fermento veio dele, apodrecemos, fermentamos e saímos vinho desse trabalho como uvas pisadas pelos pés barrocos e cheios de sangue de Gabriel Villela
6. Já tinha trabalhado com eles antes ? Se não , como foi trabalhar ?Eu acho que respondi essa pergunta antes mas vou falar e completar com coisas que escrevi no blog da peça lá também pode-se visitar a polêmica que rodeou a existência do espetáculo e também descobrir entre outros o trabalho luxuoso feito pela categoria de dois artistas, atores, assistentes, Cacá e Guga, sem contar o brilho do produtor ator artista Claudio Fontana. Foi um trabalho muito iluminado pelas luzes dessas estrelas todas. Sem esquecer a nossa Miss Venezuela Renata Alvim, mas isso vai pro livro. Porém, voltando a sua pergunta esclareço:
Logo após as primeiras apresentações, a peça parece que vai empenar, então o diretor retoma o espetáculo, redirige, aprova o que caminha bem e põe no eixo o que se desvia. Gabriel, depois da primeira semana, fez uma reunião em que martelou mais uma vez os cinco pontos de sua direção, que considero primorosos e que são seu sistema de trabalho que tanto admiro. Transcrevo abaixo os cinco pontos deste bate papo com os atores.
“Primeiro ponto: o ator tem que ter a consciência de estar trabalhando com uma dimensão épica do relato e não deve deixar que a máscara tome conta do seu rosto, ou seja, colocar o personagem, a máscara, entre a sua consciência de estar em cena e a lucidez da platéia de estar assistindo.
O segundo ponto é o ponto de contado dessas máscaras, a relação desses pontos de contato. Ou seja, todos, todo mundo precisa ter a consciência de que é responsável por aquela máscara naquele instante e por toda a idéia, ao invés de tornar solitária a sua experiência em cena e com isso abandonar a relação com a idéia maior perdendo o distanciamento acordado inicialmente e permitindo que a máscara grude no rosto, fora de uma vivência crítica.
O terceiro ponto é a dinâmica física do espetáculo. O ator deve saber que o tempo inteiro de circulação, dentro ou fora, ele continua com responsabilidade sobre a cena. Não é porque ele vai pra coxia, pro chuveiro, pra qualquer lugar, enfim, ele pode se permitir desligar. É um coletivo, o ator que está em cena tem a percepção, por não estar grudado à máscara, que ele está ligado a toda contra-regragem, irmanado ao coletivo e não deve abandonar nem ser abandonado pelo todo.
Quanto a contra-regragem, a relação com os objetos de cena, atenção: ator não é um contra-regra, ele exercita a contra-regragem, porque tem uma consciência gigante dos objetos: sabe como foram descobertos, construídos, acompanhou como cada um foi pra cena, tem uma consciência afetiva desses objetos, uma relação inteligente, acima de tudo a inteligência.
O penúltimo ponto é o conceito da qualidade do verbo, presente o tempo inteiro como relato trágico, mesmo que no nosso caso específico, ele venha a fundir gêneros, melodrama, trágico, patético, bizzaro, barra pesada: é preciso manter a consciência de tudo isso no verbo, na musculatura verbal. Uma musculatura que não se afrouxa, se vitaliza.
Na vida cotidiana, a musculatura verbal não é tão exigida como no teatro, e muito dessa musculatura, em repouso, fica esquecida. A boca que fala a fala, o que precisa ser dito, refletido, levado adiante, a boca que fala o verbo deste espetáculo tem que ter seus músculos acionados e exigidos com saúde. Coisa que o cotidiano ditado pelo estatuto burguês, não pede pra ninguém, aliás, se você entra e fala com essa musculatura em qualquer ambiente, você derruba esse lugar.
O quinto ponto é o ponto do futebol que linka tudo. Eu quero atores em continuidade, em estado contínuo de elaboração. Que ajam como atores de coletivo. Tem aquele corredor, atrás do palco, lá onde fica a mesa do lanche e do café. Tirem a mesa, façam dois gols e disputem um futebol entre vocês todo dia. Daí vocês vão ver que o futebol, que nós achamos intuitivamente lá atrás, no nosso passado de ensaios, como preparação do corpo do ator, como forma de tomarmos conta do espaço, quando nem nos conhecíamos direito, quando éramos estrangeiros vindo de mundos diferentes, o futebol que nos ligou é o meio da gente inaugurar a noite de prodígios, que é a noite do espetáculo, uma noite de prodígios que tem a mágica do futebol para resgatar brasileiramente essa unidade.
Joguem o jogo, com bola ou sem, exercitem o passe, a disputa, a reação. Esse nosso teatro e futebol, é ele que unifica os cinco atores em torno de uma bola, a competição entre os times de atores, é bacana, porque estabelece concretamente um vai e vem de trocas de adrenalina, hormônio, suores, contatos, e quando pára esse futebol da preparação corporal diária, ele não acaba, você vai pra sua concentração pessoal, tua maquiagem, passar teu texto, aquecer tua voz mas ele já editou vocês, atores, ele já rompeu a relação de todos com o cotidiano, enfim, já espatifou esse corpo domesticado da relação automatizada com a vida, trazendo outro corpo para a nova relação que se apresenta, o jogo daquele dia.
Ainda, esse futebol diário traz a memória de nossos ensaios, a memória de nosso primeiros momentos, memória afetiva, de coletivo, que restabelece dia a dia o vínculo de continuidade. A pelada que hoje foi 5 a 2, um ganhou outro perdeu, mas amanhã pode virar e isso é muito saudável, é uma forma de impedir que a inércia tome conta da rotina do ator.
Acho que é isso.”
7. Como é dividir o palco com atores tão gabaritados como Rodrigo Fregnan, Pedro Moutinho, Ando Camargo e Rodolfo Vaz? Já tinha trabalhado com algum deles antes ?
Rodrigo Fregnan, pelo que eu sei, passou pelo diretor Antunes Filho, com ele realizou grandes criações e forjou sua seriedade para encarar os personagens. È obssessivo, entra com dois isqueiros na cena pra vencer a hipótese de um dos isqueiros falhar quando acender o baseado e por incrível que pareça, um dia falhou e ele estava lá com o outro. De vez em quando nos estranhamos porque ele é do tipo que apóia mesmo, camaradão, companheiro que vive apoiando e manifestando esse apoio e não hesitava e me dizer coisas como "tamo com você", "agora é contigo", e eu ficava mais inseguro porque isso ele dizia sempre depois de ter feito grandes apresentações. É um poeta, não me esqueço dele falando Fernando Pessoa no camarim, antes de começar o espetáculo, fez-se um silêncio especial e ele mandou inspirado: NUNCA CONHECI QUEM TIVESSE LEVADO PORRADA. Maravilhoso. Naquele dia, nós atores, entramos em cena umidecidos pela seu talento. Foi um belíssimo espetáculo, pelo que me lembro.
Pedro Moutinho. Repare na aura do Pedro. Lembre dele como uma brasa que esquenta, refresca, ilumina qualquer amizade. É pintor. Dele são o Jesus Cristo da peça e o cenário de Veronique de Milus, o sangue dos nossos pés, um luxo. A sua execução da partitura do seu papel, nos dias em que faz pra lá de bem, é de babar. Uma surpresa pra mim que nem sempre tenho oportunidade de conhecer jovens atores assim tão talentosos. Uma curiosidade: é o que mais tem espaço entre os personagens, no entanto você não enxerga ele desconcentrado, andando pela coxia, pra lá e pra cá, ele desaparece, feito anjo e se você precisar ele está lá. Tem uma intuição teatral que é muito rara de se ver. É nosso príncipe da paz.
Ando Camargo é um rio. Um corrimento de ator. Como todos nós tem defeitos mas suas qualidades são maiores. Aliás, pra não ficar uma falação chapa branca, podes crer que trabalhamos muito pras coisas ficarem bem. Mas voltando ao Ando lembro de dias que interpretava tão bem a Zizi Marli que eu me despedia da personagem na coxia e pedia para ela voltar no outro dia. É o nosso fio terra, nossa antena, por isso é que fica lá no alto. É o ator amando o público, tesudo se abrindo e se entregando, molhadinha, queridinha, não nega carinho para o público e isso é uma qualidade dos elegantes. No Edelso teve dias tão felizes com a platéia que os aplausos eram como se pedissem bis, com ele se esquecia tudo, a gente ria e chorava com aquele final NÃO VEJO A HORA!
Rodolfo Vaz. Galpão. Esse é o cara, é o sangue bom! está escrito lá no programa “convidado especial”. Um acepipe, um plus de especialidade dado de bandeja para São Paulo. O publico de São Paulo tem sempre pra ver ótimos atores, mas internacional de Minas Gerais, esse tempão todo com a gente, mais de cinco meses, é raro. não tem ator como ele todo dia não, parabéns principalmente para a produção que nos apresentou essa excelência de criador gerado no útero do galpão mineiro. Eu não pude conhecê-lo tão profundamente antes porque as duas vezes em que nos cruzamos, uma no Romeu e Julieta eu me dissolvi naquela maravilha e me perdi no todo, depois quando fui ver Doente Imaginário, devia ter ido ao hospital pois ele ficou doente nessa apresentação lá na terra do doutor Blumenau. É isso.
8. É mais difícil trabalhar com monólogos ?
É dificil. Mas nesse espetáculo sinceramente nem senti. Nos dias de bons espetáculos, como o Gabriel chamou a atenção, a coxia estava dentro de cena e a cena estava dentro da coxia. Essa peça não é um monólogo. São muitas vozes, muitos timbres juntos.
Qual “estilo” você prefere?
Estilo de verdade.
9. Como foi a última apresentação no Teatro Oficina ?
Não tivemos ainda a última apresentação. Teve sim essa coisa de fazer no teatro Oficina, que é um teatro que agrega valor ao nosso trabalho pelo que significa a sua história na história do teatro do mundo. E isso dá muita responsabilidade. Pedro Moutinho falou muitas vezes disso, da dor de barriga de fazer lá naquele templo. Mas se entendo sua pergunta a última apresentação foi aquele especialidade pelas presenças todas, desde Drausio Varella até você e eu, pelo calor da noite, pela lua cheia no céu, aquele teto se abrindo trazendo aquele fresquinho da noite, as sirenes da polícia, a música brega dos botecos, as luzes das celas dos apartamentos, acendendo e apagando, árvores, estrelas. Numa das nossas primeiras apresentações choveu, choveu muito, depois de muitos dias. Parecia o céu chorando, triste, mas a gente precisava tanto daquelas lágrimas, tava tudo tão seco.
É uma sensação diferente das outras apresentações?
A sensação é diferente sim. Gabriel me contou que na Alemanha, onde a grande maioria das cidades foi construída ao longo dos rios, as cidade não tinham prisões nem manicômios, a loucura ainda não estava catalogado como tal. Mas para os marginais, aqueles inadaptados, inconformados, criaram uns navios-prisões-hospícios que ficavam dia e noite circulando e parando nos portos para abastecimento ou para receber mais um louco, delinquente, marginal, condenado. Era nessa hora que o povo curioso se ajuntava pra ver o espetáculo de degradação, de delírio, de grandeza e vileza que aquelas figuras ofereciam. E isso durou por muitos anos, mais de século! Vindo do SESC CARANDIRU SANTANA nossa nau de loucos aporta no porto do Oficina, vai pro porto de Santo André, Presidente Prudente, um dia pra Brasília, outro em Belo Horizonte. Navegar é preciso.
10. De onde vem a sua inspiração para interpretar tão bem?V
em de muitas paixões: pela vida, pela alegria, pelas crianças, pelo público, os passarinhos, as flores, meus amigos, minhas tristezas, vem das uvas todas que apodrecem dentro de mim, me apertando, socando, sovando, amando. Principalmente amando.
Segundo, falei com você durante a semana por telefone para marcar uma entrevista, lembra? Ontem no final da apresentação de Salmo 91, também, conversei com você e fiquei de mandar as questões.
Bem, aí estão, espero que você possa me responder.
1. Como funcionou o processo de criação, os ensaios? Há aqui no blog um tópico chamado CARENCIA E NECESSIDADE que fala sobre os objetos e um outro chamado PREPARAÇÃO CORPORAL, os dois em julho que falam sobre isso.
2. Como foi a primeira apresentação? Como você se sentiu? E como você sentiu seus parceiros de cena e o público?
Já bem antes da estréia propriamente dita, já haviamos feito algumas. na semana que antecedeu a estréia no SESC, passamos uma semana inteira de terça a segunda dentro do SESC. Então quando fizemos a estréia já tínhamos "estreado" pelo menos umas cinco vezes. Embora afogados pela emoção da estréia creio que conseguimos executar a partitura proposta pelo diretor com muita disciplina, o que rendeu boas apresentações, principalmente por causa da seriedade do assunto que estávamos tratando ali no Sesc Santana, terreno vizinho do Carandiru, palco do massacre, nesse ano de 2007, exatos quinze anos depois.
Quanto ao que eu senti, cuidei o mais possível para realizar minhas ações como ator sem ceder a frivolidades, besteiras. Lembro que no dia da estréia, durante a tarde, fui visitar o local onde por décadas funcionou o presídio, lá na Rua Cruzeiro do Sul, Estação Carandiru do metrô, onde é hoje o Parque da Juventude. Tudo derrubado, uma arquitetura maquiada tomou conta de tudo. Foram derrubados os edifícios todos, foi feita uma cirurgia para eliminar da paisagem qualquer vestígio dessa ferida da sociedade civilizada. Atravessei o Rio Carandiru, que passa entre o presídio feminino e o Carandiru, e colhi algumas flores selvagens que cresceram no terreno onde correu o sangue do massacre e levei para o camarim. Ficaram ali na primeira semana. Pensei muito nisso durante todo o espetáculo.
Quanto aos parceiros de cena e o público, para não me estender muito, eu acho que compartilhar a criação diária do espetáculo, porque ele é feito e logo depois precisa-se fazer tudo de novo, enfim, compartilhar a cena faz-nos obrigatoriamente ter de enfrentar nossas limitações e medos. Há dias maravilhosos em que nos sentimos poderosos, porém no dia seguinte muitas vezes a cena é tão fraca, tão sofrível, tão terrível, que é como se o espetáculo nos recolocasse no nosso devido lugar. Todos nós, atores, assistentes, diretor, todos, compartilhamos dia a dia esse fazer e refazer, alegrias e tristezas, vitórias, vitórias e muitas, inúmeras derrotas.
Nada muito diferente do que se diz o que é a vida.
3. Como é participar de uma peça com histórias tão intrigantes e emocionantes como as de Salmo 91.
O salmo 91 entre outras coisas diz assim (e isso está na peça) "mil cairão a teu lado e dez mil a tua direita mas tu não serás atingido, nada chegará a tua tenda, etc, etc". No começo, quando li isso, tinha certeza de que EU era esse "um", EU era o que sobra, o salvo, o vivo, o cara que vai ver tudo cair e morrer a tua direita e não ser atingido por nada, lá dentro da sua tenda. Mas a peça e a criação artística que a envolveu, teve a ventura de revelar que o lugar da gente pode se também no meio de mil, dez mil, milhões. Então eu e você e todo mundo não somos somente esse "um", que sobra, somos todos. Nós nos "achamos", cremos que nada vai tocar na nossa "pessoa", nosso egoísmo ouve o canto dessa sereia enganosa que nos distancia da compaixão com a vida dos nossos semelhantes e nos mantem salvos dentro da nossa "tendinha". Não é nada disso. Quanto as histórias, são tantas, tantas vidas perto e longe da gente, são muito mais que dez, mil, milhões, são bilhões de histórias, cada cabeça uma sentença. E no teatro isso emociona tanto porque o teatro ama o homem, ama os seres, as coisas, a vida. Teatro não tem nada a ver com esse desprezo que trata gente como conta ou porcentagem ou como mercadoria. Não dá nem pra explicar esse tipo de coisa, que não é de se explicar.
4. Como é interpretar o DaDá?
O Dadá somos nós: os sobreviventes, sobreviventes dos horrores da vida, da ditadura militar brasileira, da bomba de Hiroschima, do massacre da Candelária, dos milhões que morrem assassinados, dos venenos da poluição, dos nossos desesperos, a lista não tem fim, mas ser sobrevivente é mais que tudo ser testemunha para todas as gerações da vitória da vida sobre a morte e aceitar a obrigação humana de expressar isso através dos meios que tiver a seu alcance. É não trair nunca a expectativa de vida dos que morreram antes de nós.
e o Veio Valdo, personagens tão distintos ?O Véio Valdo é o mais velho personagem preso no cárcere chamado Terra. Está preso aqui enquanto as estrelas dos puteiros estelares rrrrrrrrebolam suas bundas de parar a feira. É personagem mítico, interno, enclausurado, solitário da solitária, passou pelos 120 dias de Sodoma e Gomorra oferecidos pela crueldade dos "home", que ele levou no bico comendo sua própria merda. É o Sem-Nada. Sem-Ceu, Sem-Sol, Sem-Ar, Sem-Luz, Sem-Deus-Nem-Satanás. é um Sem-Nada.
Quais as principais diferenças entre eles ? Dentro da prisão não temos diferenças. Afinal estamos todos sobre o mesmo denominador comum. Nada diferente do que estamos vivendo aqui no planeta.
Qual é mais complicado de interpretar ?
Lembrei duma musica do Jorge Mautner: "Na matemática do meu desejo eu sempre quero mais um, mais um, mais um beijo". Complicado como uma conta sem fim de interpretar e solucionar. Daria um teorema falar sobre isso. É como o desejo de mais um mais um beijo. Mas vai virar um livro esta entrevista...
E qual você gosta mais?Já responderam isso antes de mim: gosto de todos.
5. O que mais te impressionou na adaptação de Dib Carneiro ? A fluência e a ligação de uma coisa e outra que a peça tem. O Colar de pérolas que é a ligação de uma cena a outra. É um relógio, tudo ligado, entendido, funcionando. TRepare: Por exemplo, a briga estopim do massacre começou no beco lazarento da rua dez, a peça tem dez personagens, noves fora 1. E se fosse um? Cada celula que você quiser analisar, estudar, pode confiar, ir pro texto que a resposta está lá. Isso é o que se chama de dramaturgia ou a maquinaria, a máquina que faz a peça andar, muito próximo daquilo a que os alquimistas chamam de "moto perpétuo", a identificação com o movimento que mundo faz antes de tudo e de todos. Não é surpreendente?
E na direção de Gabriel Villlela?Já falei isso várias vezes e vou repetir: me impressiona a inteligência, a cultura e a sutileza que com toda firmeza o Gabriel imprime no trabalho. Algumas vezes resisti, duvidei mas tive que ceder às evidências científicas prodigiosas da sua intuição. Ele não é besta nem nada, não fica a dever pra ninguém, a nenhum criador teatral do planeta e nos fez grandes junto com a sua arte. Ele nos elogia muito, decerto fizemos por receber esses elogios mas o fermento veio dele, apodrecemos, fermentamos e saímos vinho desse trabalho como uvas pisadas pelos pés barrocos e cheios de sangue de Gabriel Villela
6. Já tinha trabalhado com eles antes ? Se não , como foi trabalhar ?Eu acho que respondi essa pergunta antes mas vou falar e completar com coisas que escrevi no blog da peça lá também pode-se visitar a polêmica que rodeou a existência do espetáculo e também descobrir entre outros o trabalho luxuoso feito pela categoria de dois artistas, atores, assistentes, Cacá e Guga, sem contar o brilho do produtor ator artista Claudio Fontana. Foi um trabalho muito iluminado pelas luzes dessas estrelas todas. Sem esquecer a nossa Miss Venezuela Renata Alvim, mas isso vai pro livro. Porém, voltando a sua pergunta esclareço:
Logo após as primeiras apresentações, a peça parece que vai empenar, então o diretor retoma o espetáculo, redirige, aprova o que caminha bem e põe no eixo o que se desvia. Gabriel, depois da primeira semana, fez uma reunião em que martelou mais uma vez os cinco pontos de sua direção, que considero primorosos e que são seu sistema de trabalho que tanto admiro. Transcrevo abaixo os cinco pontos deste bate papo com os atores.
“Primeiro ponto: o ator tem que ter a consciência de estar trabalhando com uma dimensão épica do relato e não deve deixar que a máscara tome conta do seu rosto, ou seja, colocar o personagem, a máscara, entre a sua consciência de estar em cena e a lucidez da platéia de estar assistindo.
O segundo ponto é o ponto de contado dessas máscaras, a relação desses pontos de contato. Ou seja, todos, todo mundo precisa ter a consciência de que é responsável por aquela máscara naquele instante e por toda a idéia, ao invés de tornar solitária a sua experiência em cena e com isso abandonar a relação com a idéia maior perdendo o distanciamento acordado inicialmente e permitindo que a máscara grude no rosto, fora de uma vivência crítica.
O terceiro ponto é a dinâmica física do espetáculo. O ator deve saber que o tempo inteiro de circulação, dentro ou fora, ele continua com responsabilidade sobre a cena. Não é porque ele vai pra coxia, pro chuveiro, pra qualquer lugar, enfim, ele pode se permitir desligar. É um coletivo, o ator que está em cena tem a percepção, por não estar grudado à máscara, que ele está ligado a toda contra-regragem, irmanado ao coletivo e não deve abandonar nem ser abandonado pelo todo.
Quanto a contra-regragem, a relação com os objetos de cena, atenção: ator não é um contra-regra, ele exercita a contra-regragem, porque tem uma consciência gigante dos objetos: sabe como foram descobertos, construídos, acompanhou como cada um foi pra cena, tem uma consciência afetiva desses objetos, uma relação inteligente, acima de tudo a inteligência.
O penúltimo ponto é o conceito da qualidade do verbo, presente o tempo inteiro como relato trágico, mesmo que no nosso caso específico, ele venha a fundir gêneros, melodrama, trágico, patético, bizzaro, barra pesada: é preciso manter a consciência de tudo isso no verbo, na musculatura verbal. Uma musculatura que não se afrouxa, se vitaliza.
Na vida cotidiana, a musculatura verbal não é tão exigida como no teatro, e muito dessa musculatura, em repouso, fica esquecida. A boca que fala a fala, o que precisa ser dito, refletido, levado adiante, a boca que fala o verbo deste espetáculo tem que ter seus músculos acionados e exigidos com saúde. Coisa que o cotidiano ditado pelo estatuto burguês, não pede pra ninguém, aliás, se você entra e fala com essa musculatura em qualquer ambiente, você derruba esse lugar.
O quinto ponto é o ponto do futebol que linka tudo. Eu quero atores em continuidade, em estado contínuo de elaboração. Que ajam como atores de coletivo. Tem aquele corredor, atrás do palco, lá onde fica a mesa do lanche e do café. Tirem a mesa, façam dois gols e disputem um futebol entre vocês todo dia. Daí vocês vão ver que o futebol, que nós achamos intuitivamente lá atrás, no nosso passado de ensaios, como preparação do corpo do ator, como forma de tomarmos conta do espaço, quando nem nos conhecíamos direito, quando éramos estrangeiros vindo de mundos diferentes, o futebol que nos ligou é o meio da gente inaugurar a noite de prodígios, que é a noite do espetáculo, uma noite de prodígios que tem a mágica do futebol para resgatar brasileiramente essa unidade.
Joguem o jogo, com bola ou sem, exercitem o passe, a disputa, a reação. Esse nosso teatro e futebol, é ele que unifica os cinco atores em torno de uma bola, a competição entre os times de atores, é bacana, porque estabelece concretamente um vai e vem de trocas de adrenalina, hormônio, suores, contatos, e quando pára esse futebol da preparação corporal diária, ele não acaba, você vai pra sua concentração pessoal, tua maquiagem, passar teu texto, aquecer tua voz mas ele já editou vocês, atores, ele já rompeu a relação de todos com o cotidiano, enfim, já espatifou esse corpo domesticado da relação automatizada com a vida, trazendo outro corpo para a nova relação que se apresenta, o jogo daquele dia.
Ainda, esse futebol diário traz a memória de nossos ensaios, a memória de nosso primeiros momentos, memória afetiva, de coletivo, que restabelece dia a dia o vínculo de continuidade. A pelada que hoje foi 5 a 2, um ganhou outro perdeu, mas amanhã pode virar e isso é muito saudável, é uma forma de impedir que a inércia tome conta da rotina do ator.
Acho que é isso.”
7. Como é dividir o palco com atores tão gabaritados como Rodrigo Fregnan, Pedro Moutinho, Ando Camargo e Rodolfo Vaz? Já tinha trabalhado com algum deles antes ?
Rodrigo Fregnan, pelo que eu sei, passou pelo diretor Antunes Filho, com ele realizou grandes criações e forjou sua seriedade para encarar os personagens. È obssessivo, entra com dois isqueiros na cena pra vencer a hipótese de um dos isqueiros falhar quando acender o baseado e por incrível que pareça, um dia falhou e ele estava lá com o outro. De vez em quando nos estranhamos porque ele é do tipo que apóia mesmo, camaradão, companheiro que vive apoiando e manifestando esse apoio e não hesitava e me dizer coisas como "tamo com você", "agora é contigo", e eu ficava mais inseguro porque isso ele dizia sempre depois de ter feito grandes apresentações. É um poeta, não me esqueço dele falando Fernando Pessoa no camarim, antes de começar o espetáculo, fez-se um silêncio especial e ele mandou inspirado: NUNCA CONHECI QUEM TIVESSE LEVADO PORRADA. Maravilhoso. Naquele dia, nós atores, entramos em cena umidecidos pela seu talento. Foi um belíssimo espetáculo, pelo que me lembro.
Pedro Moutinho. Repare na aura do Pedro. Lembre dele como uma brasa que esquenta, refresca, ilumina qualquer amizade. É pintor. Dele são o Jesus Cristo da peça e o cenário de Veronique de Milus, o sangue dos nossos pés, um luxo. A sua execução da partitura do seu papel, nos dias em que faz pra lá de bem, é de babar. Uma surpresa pra mim que nem sempre tenho oportunidade de conhecer jovens atores assim tão talentosos. Uma curiosidade: é o que mais tem espaço entre os personagens, no entanto você não enxerga ele desconcentrado, andando pela coxia, pra lá e pra cá, ele desaparece, feito anjo e se você precisar ele está lá. Tem uma intuição teatral que é muito rara de se ver. É nosso príncipe da paz.
Ando Camargo é um rio. Um corrimento de ator. Como todos nós tem defeitos mas suas qualidades são maiores. Aliás, pra não ficar uma falação chapa branca, podes crer que trabalhamos muito pras coisas ficarem bem. Mas voltando ao Ando lembro de dias que interpretava tão bem a Zizi Marli que eu me despedia da personagem na coxia e pedia para ela voltar no outro dia. É o nosso fio terra, nossa antena, por isso é que fica lá no alto. É o ator amando o público, tesudo se abrindo e se entregando, molhadinha, queridinha, não nega carinho para o público e isso é uma qualidade dos elegantes. No Edelso teve dias tão felizes com a platéia que os aplausos eram como se pedissem bis, com ele se esquecia tudo, a gente ria e chorava com aquele final NÃO VEJO A HORA!
Rodolfo Vaz. Galpão. Esse é o cara, é o sangue bom! está escrito lá no programa “convidado especial”. Um acepipe, um plus de especialidade dado de bandeja para São Paulo. O publico de São Paulo tem sempre pra ver ótimos atores, mas internacional de Minas Gerais, esse tempão todo com a gente, mais de cinco meses, é raro. não tem ator como ele todo dia não, parabéns principalmente para a produção que nos apresentou essa excelência de criador gerado no útero do galpão mineiro. Eu não pude conhecê-lo tão profundamente antes porque as duas vezes em que nos cruzamos, uma no Romeu e Julieta eu me dissolvi naquela maravilha e me perdi no todo, depois quando fui ver Doente Imaginário, devia ter ido ao hospital pois ele ficou doente nessa apresentação lá na terra do doutor Blumenau. É isso.
8. É mais difícil trabalhar com monólogos ?
É dificil. Mas nesse espetáculo sinceramente nem senti. Nos dias de bons espetáculos, como o Gabriel chamou a atenção, a coxia estava dentro de cena e a cena estava dentro da coxia. Essa peça não é um monólogo. São muitas vozes, muitos timbres juntos.
Qual “estilo” você prefere?
Estilo de verdade.
9. Como foi a última apresentação no Teatro Oficina ?
Não tivemos ainda a última apresentação. Teve sim essa coisa de fazer no teatro Oficina, que é um teatro que agrega valor ao nosso trabalho pelo que significa a sua história na história do teatro do mundo. E isso dá muita responsabilidade. Pedro Moutinho falou muitas vezes disso, da dor de barriga de fazer lá naquele templo. Mas se entendo sua pergunta a última apresentação foi aquele especialidade pelas presenças todas, desde Drausio Varella até você e eu, pelo calor da noite, pela lua cheia no céu, aquele teto se abrindo trazendo aquele fresquinho da noite, as sirenes da polícia, a música brega dos botecos, as luzes das celas dos apartamentos, acendendo e apagando, árvores, estrelas. Numa das nossas primeiras apresentações choveu, choveu muito, depois de muitos dias. Parecia o céu chorando, triste, mas a gente precisava tanto daquelas lágrimas, tava tudo tão seco.
É uma sensação diferente das outras apresentações?
A sensação é diferente sim. Gabriel me contou que na Alemanha, onde a grande maioria das cidades foi construída ao longo dos rios, as cidade não tinham prisões nem manicômios, a loucura ainda não estava catalogado como tal. Mas para os marginais, aqueles inadaptados, inconformados, criaram uns navios-prisões-hospícios que ficavam dia e noite circulando e parando nos portos para abastecimento ou para receber mais um louco, delinquente, marginal, condenado. Era nessa hora que o povo curioso se ajuntava pra ver o espetáculo de degradação, de delírio, de grandeza e vileza que aquelas figuras ofereciam. E isso durou por muitos anos, mais de século! Vindo do SESC CARANDIRU SANTANA nossa nau de loucos aporta no porto do Oficina, vai pro porto de Santo André, Presidente Prudente, um dia pra Brasília, outro em Belo Horizonte. Navegar é preciso.
10. De onde vem a sua inspiração para interpretar tão bem?V
em de muitas paixões: pela vida, pela alegria, pelas crianças, pelo público, os passarinhos, as flores, meus amigos, minhas tristezas, vem das uvas todas que apodrecem dentro de mim, me apertando, socando, sovando, amando. Principalmente amando.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Um resumo de nossa 'fortuna crítica' até agora
NA LINHA DOS MELHORES MOMENTOS, AQUI VÃO TRECHOS DAS CRÍTICAS DE SALMO 91 ATÉ AGORA:
Gabriel Villela despoja a cena, com os cinco atores - Pascoal da Conceição, Rodrigo Fregnan, Ando Camargo, Pedro Henrique Moutinho e Rodolfo Vaz - cara a cara com a platéia, desfiando a crueza de uma humanidade que procura, desesperadamente, se manter sobrevivente. Com citações bíblicas e rituais religiosos, permeados por referências futebolísticas, o diretor cria atmosfera de pungente finitude que, sem maiores artifícios cênicos, deixa o real exposto. Aí é até possível encontrar poesia na miséria existencial."
Macksen Luiz
Jornal do Brasil, 26-7-2007
O espetáculo dirigido com rara sutileza por Gabriel Villela radiografa em dez personagens o universo de mais de uma centena deles. Costuradas por analogias com o futebol, as histórias comovem a platéia pelo tom confessional. Em um dos grandes momentos, Pascoal da Conceição incorpora o sofrimento do filho que não seguiu os conselhos da mãe e morrerá sem ler o salmo citado no título da peça. Longe do estereótipo, o ator se destaca no eficiente elenco. Villela dispensa os excessos habituais de suas direções em nome de um bom texto e bons intérpretes.
Dirceu Alves Jr.,
Veja São Paulo
A suspeita de que o potencial do livro Estação Carandiru estivesse esgotado cai por terra com a peça Salmo 91, em cartaz em São Paulo. Primeiro porque o texto de Dib Carneiro Neto parece ser o que melhor reproduz o grande trunfo da obra: as histórias pessoais, narradas pelos criminosos em tom humanista. A direção madura de Gabriel Villela reduziu esses quadros à sua essência: o ator entra, dirige-se à frente do palco e conta sua vida. Com roupas comuns, algumas manchas de sangue nas pernas e simbólicos objetos de cena, os atores Pascoal da Conceição, Ando Camargo, Rodolfo Vaz, Pedro Moutinho e Rodrigo Fregnan transformam os monólogos em pequenas peças de "canto-falado". É de arrepiar.
Ivan Cláudio,
revista Isto É Gente
Salmo 91 é um espetáculo de dureza total que consegue ser compassivo. Quando a luz do palco se acende em azul tênue e a voz dolorida de Elza Soares inicia O Meu Guri, de Chico Buarque, algo começa a prender a atenção do público; e assim será até o fim. São dez monólogos, dez situações, dez "des-humanidades". O espetáculo não começa: explode pelo talento de Pascoal da Conceição que, amarrado e imóvel, descreve o que foi o massacre e, furioso com o salmo pregado pela mãe, abre as portas do desespero de outros personagens. O equilíbrio com tensão contagia um elenco exemplar. Alternando os monólogos com Pascoal da Conceição, os atores Pedro Henrique Moutinho, Rodolfo Vaz (Grupo Galpão), Rodrigo Fregnan e Ando Camargo são, no momento, parte do melhor da nova geração dos palcos. Criam um clima de fornalha com uma brecha para a autocrítica da platéia. Serão apenas aqueles indivíduos os únicos cruéis?
Jefferson Del Rios
(Caderno 2, do Estadão)
A necessidade de Justiça não exclui a compaixão. O monólogo do preto velho (Rodrigo Fregnan) me dilacerou. Quando ele fala no filho, o seu menino, que completa a terceira geração da família dentro daquele inferno e diz que vai ensinar que ali dentro homem não chora, mas o próprio velho se debulha em lágrimas, aquilo me deu uma opressão no peito que parecia que eu ia morrer. E que ator maravilhoso é Pascoal da Conceição! Todos são bons e a peça mereceria um prêmio coletivo de interpretação na votação deste ano da APCA, a Associação Paulista dos Crticos de Arte. Mas o Pascoal... Quando ele se ajoelha no fim, depois que todos cantam o salmo, a sensação que tive foi a de ter viajado, em busca de redenção, às entranhas da miséria humana. Gabriel foi na veia - menos é mais, mas o menos dele inclui uma visualização tão forte que aqueles cinco atores, vivendo dez papéis, tornam-se antológicos. Toda tragédia passa pela palavra.
Luiz Carlos Merten,
no site do Estadão
A peça consegue preservar o talento, o frescor e a humanidade com que Drauzio Varella observa o universo sombrio da prisão. Preste atenção em como o espetáculo se diferencia do livro e do filme de Hector Babenco ao apostar no formato de monólogos.
Gabriela Mellão,
revista Bravo!
É simplesmente espetacular. A peça é dirigida por Gabriel Villela e nos apresenta um elenco afiadíssimo. As histórias comovem a platéia pelo tom confessional e são, como costumo dizer, uma "pedrada". Num palco praticamente limpo, com os próprios atores carregando os poucos elementos cênicos, vê-se em dez personagens, um pouco do universo de dezenas de histórias reais que aparecem no livro. Imperdível.
Por Sérgio Mena Barreto,
Dicas Culturais (www.menabarreto.com.br)
Cada ator faz dois monólogos e um dos mais tocantes é o do travesti Veronique, interpretado por Rodolfo Vaz.
Gisela Anauate,
revista Época
Ao sair do teatro tinha a sensação de ter visto teatro. Coisa rara nos dias de hoje. Uma peça da qual não se sai impune. Penso no Véio Valdo, momento sublime de Pascoal da Conceição, e dias depois repito sozinha "num tô louco, eu tô é oco". A frase não sai da minha cabeça, posto que a palavra é a verdadeira arma do espetáculo. Gabriel Villela enveredou por um caminho diferente daquele ao qual ele havia acostumado seus admiradores, mas o trabalho realizado com os atores continua um dos pontos altos do seu trabalho. Um espetáculo surpreendente, digno de ser visto. E revisto.
Deolinda Vilhena
(site Terra Magazine)
O trabalho do adaptador Dib Carneiro Neto é de extrema perícia e de impressionante síntese dramatúrgica, criando no espectador o mesmo fascínio provocado pela candência verbal espalhada pelas páginas do livro de Drauzio Varella. Pode-se falar que tanto um, no livro, como o outro, no palco, nasceram antológicos, pela sinceridade da escrita. A boa (ou grande?) surpresa da encenação veio do tratamento austero, minimalista dado pelo diretor Gabriel Villela a todos os setores da montagem, notadamente na condução do elenco, todos os cinco atores longe da tentação do maneirismo. Pascoal da Conceição, Pedro Henrique Moutinho, Rodolfo Vaz, Rodrigo Fregnan e Ando Camargo, todos duplamente convincentes, dominando solitariamente o palco, dosando sabiamente ironia, compreensão e o humor subjacente de algumas situações inusitadas. Um indiscutível e paradoxalmente belo momento da superação da arte sobre a vida!
Afonso Gentil,
no site Aplauso Brasil
Salmo 91 é uma obra-prima justamente por apresentar fatos sem apontar culpados ou vítimas. Apenas fatos! Afinal, quem é mais assassino: O homem com um revólver ou os homens omissos que brincam com aviões?"
Célia Regina Forte
jornalista e dramaturga
Assisti à peça e o elenco deu um show. O time está tinindo. A adaptação do Dib, por incrível que pareça, trouxe novidade até para mim, que tinha pouca esperança de deparar-me com alguma novidade. Afinal, depois de ler o livro 2 vezes e ver o filme por 5!!!!... Mas, surpresa, Dib fez um trabalho que mostra o quão fértil é o livro do Drauzio. Misturou histórias/personagens, tirou o médico de cena, foi mais "bárbaro" que o médico-humanista que é Dr. Drauzio, abriu espaço nobre para duas travestis com palavreado riquíssimo-barra pesada, etc, etc. Gabriel Villela nadou de braçada.
Maria do Rosário Caetano
(fanzine Almanaquito)
O texto do adaptador Dib Carneiro Neto - maduro, consciente, e desprovido de qualquer sentimentalismo banal - encanta o público e flui na boca dos excelentes atores , mostrando riqueza idiomática e conhecimento da gíria pertinente de cada personagem, que valoriza ainda mais cada cena e palavra dos monólogos. Gabriel Villela, diretor inteligente, experiente, concebe uma montagem despojada, nua, emocional - feliz parceria desses artistas que envolvem a platéia no sentimento de cumplicidade com aqueles já condenados em vida.
Meu destaque na peça é para os atores - em especial Pascoal da Conceição, que recebe como presente dois personagens fascinantes e nos presenteia, a cada cena, com uma aula de interpretação. Um dos personagens chama minha atenção - "O Velho Valdo" que, no melhor estilo de Grotowsky, exigiu do ator a sua entrega incondicional, transformando-se num velho de 70 anos, despido de maquiagem, figurinos, munido unicamente de sua arte para nos deliciar.
Pamela Duncan,
jornal Ponto de Vista
Neste espetáculo, não há moralismo, julgamento, questionamento... É a dor escorrendo pelas palavras de uma forma tão caudalosa, que não há como ser rotulada... Mais dor? Menos dor? Qual a condição daqueles seres humanos? Ratazanas de um bueiro? Não... não cabe nada disso... É um texto com poder invertido, que, em vez de invocar graças, revela as desgraças... Salmo 91 nos leva novamente para o teatro em sua plenitude: o elo com o sagrado... que não se rompe... o fio de prata que nos liga ao conhecimento.
Alcides Nogueira
escritor, dramaturgo e autor de novelas e minisséries
"Foi uma surpresa contundente, para mim que sou gato escaldado nas águas do livro do dr. Drauzio Varella, ter assistido à montagem que o Gabriel Villela fez do texto do jornalista Dib Carneiro Neto. Encontrei na minha experiência de espectador uma leitura nova, dinâmica e profunda, que me fez em todo instante me esquecer que um dia, há não muitos anos, eu adaptei da mesma fonte um filme chamado Carandiru."
HECTOR BABENCO, cineasta
(Caderno 2, do Estadão)
"O grande mérito do Dib Carneiro Neto foi escrever um texto que respeitou não apenas o conteúdo do meu livro, mas as características dos personagens, da prisão e, especialmente, a linguagem dos presos para criar uma polifonia de forte conteúdo dramático."
DRAUZIO VARELLA, autor do livro Estação Carandiru
(em depoimento para o Caderno 2, do Estadão)
Gabriel Villela despoja a cena, com os cinco atores - Pascoal da Conceição, Rodrigo Fregnan, Ando Camargo, Pedro Henrique Moutinho e Rodolfo Vaz - cara a cara com a platéia, desfiando a crueza de uma humanidade que procura, desesperadamente, se manter sobrevivente. Com citações bíblicas e rituais religiosos, permeados por referências futebolísticas, o diretor cria atmosfera de pungente finitude que, sem maiores artifícios cênicos, deixa o real exposto. Aí é até possível encontrar poesia na miséria existencial."
Macksen Luiz
Jornal do Brasil, 26-7-2007
O espetáculo dirigido com rara sutileza por Gabriel Villela radiografa em dez personagens o universo de mais de uma centena deles. Costuradas por analogias com o futebol, as histórias comovem a platéia pelo tom confessional. Em um dos grandes momentos, Pascoal da Conceição incorpora o sofrimento do filho que não seguiu os conselhos da mãe e morrerá sem ler o salmo citado no título da peça. Longe do estereótipo, o ator se destaca no eficiente elenco. Villela dispensa os excessos habituais de suas direções em nome de um bom texto e bons intérpretes.
Dirceu Alves Jr.,
Veja São Paulo
A suspeita de que o potencial do livro Estação Carandiru estivesse esgotado cai por terra com a peça Salmo 91, em cartaz em São Paulo. Primeiro porque o texto de Dib Carneiro Neto parece ser o que melhor reproduz o grande trunfo da obra: as histórias pessoais, narradas pelos criminosos em tom humanista. A direção madura de Gabriel Villela reduziu esses quadros à sua essência: o ator entra, dirige-se à frente do palco e conta sua vida. Com roupas comuns, algumas manchas de sangue nas pernas e simbólicos objetos de cena, os atores Pascoal da Conceição, Ando Camargo, Rodolfo Vaz, Pedro Moutinho e Rodrigo Fregnan transformam os monólogos em pequenas peças de "canto-falado". É de arrepiar.
Ivan Cláudio,
revista Isto É Gente
Salmo 91 é um espetáculo de dureza total que consegue ser compassivo. Quando a luz do palco se acende em azul tênue e a voz dolorida de Elza Soares inicia O Meu Guri, de Chico Buarque, algo começa a prender a atenção do público; e assim será até o fim. São dez monólogos, dez situações, dez "des-humanidades". O espetáculo não começa: explode pelo talento de Pascoal da Conceição que, amarrado e imóvel, descreve o que foi o massacre e, furioso com o salmo pregado pela mãe, abre as portas do desespero de outros personagens. O equilíbrio com tensão contagia um elenco exemplar. Alternando os monólogos com Pascoal da Conceição, os atores Pedro Henrique Moutinho, Rodolfo Vaz (Grupo Galpão), Rodrigo Fregnan e Ando Camargo são, no momento, parte do melhor da nova geração dos palcos. Criam um clima de fornalha com uma brecha para a autocrítica da platéia. Serão apenas aqueles indivíduos os únicos cruéis?
Jefferson Del Rios
(Caderno 2, do Estadão)
A necessidade de Justiça não exclui a compaixão. O monólogo do preto velho (Rodrigo Fregnan) me dilacerou. Quando ele fala no filho, o seu menino, que completa a terceira geração da família dentro daquele inferno e diz que vai ensinar que ali dentro homem não chora, mas o próprio velho se debulha em lágrimas, aquilo me deu uma opressão no peito que parecia que eu ia morrer. E que ator maravilhoso é Pascoal da Conceição! Todos são bons e a peça mereceria um prêmio coletivo de interpretação na votação deste ano da APCA, a Associação Paulista dos Crticos de Arte. Mas o Pascoal... Quando ele se ajoelha no fim, depois que todos cantam o salmo, a sensação que tive foi a de ter viajado, em busca de redenção, às entranhas da miséria humana. Gabriel foi na veia - menos é mais, mas o menos dele inclui uma visualização tão forte que aqueles cinco atores, vivendo dez papéis, tornam-se antológicos. Toda tragédia passa pela palavra.
Luiz Carlos Merten,
no site do Estadão
A peça consegue preservar o talento, o frescor e a humanidade com que Drauzio Varella observa o universo sombrio da prisão. Preste atenção em como o espetáculo se diferencia do livro e do filme de Hector Babenco ao apostar no formato de monólogos.
Gabriela Mellão,
revista Bravo!
É simplesmente espetacular. A peça é dirigida por Gabriel Villela e nos apresenta um elenco afiadíssimo. As histórias comovem a platéia pelo tom confessional e são, como costumo dizer, uma "pedrada". Num palco praticamente limpo, com os próprios atores carregando os poucos elementos cênicos, vê-se em dez personagens, um pouco do universo de dezenas de histórias reais que aparecem no livro. Imperdível.
Por Sérgio Mena Barreto,
Dicas Culturais (www.menabarreto.com.br)
Cada ator faz dois monólogos e um dos mais tocantes é o do travesti Veronique, interpretado por Rodolfo Vaz.
Gisela Anauate,
revista Época
Ao sair do teatro tinha a sensação de ter visto teatro. Coisa rara nos dias de hoje. Uma peça da qual não se sai impune. Penso no Véio Valdo, momento sublime de Pascoal da Conceição, e dias depois repito sozinha "num tô louco, eu tô é oco". A frase não sai da minha cabeça, posto que a palavra é a verdadeira arma do espetáculo. Gabriel Villela enveredou por um caminho diferente daquele ao qual ele havia acostumado seus admiradores, mas o trabalho realizado com os atores continua um dos pontos altos do seu trabalho. Um espetáculo surpreendente, digno de ser visto. E revisto.
Deolinda Vilhena
(site Terra Magazine)
O trabalho do adaptador Dib Carneiro Neto é de extrema perícia e de impressionante síntese dramatúrgica, criando no espectador o mesmo fascínio provocado pela candência verbal espalhada pelas páginas do livro de Drauzio Varella. Pode-se falar que tanto um, no livro, como o outro, no palco, nasceram antológicos, pela sinceridade da escrita. A boa (ou grande?) surpresa da encenação veio do tratamento austero, minimalista dado pelo diretor Gabriel Villela a todos os setores da montagem, notadamente na condução do elenco, todos os cinco atores longe da tentação do maneirismo. Pascoal da Conceição, Pedro Henrique Moutinho, Rodolfo Vaz, Rodrigo Fregnan e Ando Camargo, todos duplamente convincentes, dominando solitariamente o palco, dosando sabiamente ironia, compreensão e o humor subjacente de algumas situações inusitadas. Um indiscutível e paradoxalmente belo momento da superação da arte sobre a vida!
Afonso Gentil,
no site Aplauso Brasil
Salmo 91 é uma obra-prima justamente por apresentar fatos sem apontar culpados ou vítimas. Apenas fatos! Afinal, quem é mais assassino: O homem com um revólver ou os homens omissos que brincam com aviões?"
Célia Regina Forte
jornalista e dramaturga
Assisti à peça e o elenco deu um show. O time está tinindo. A adaptação do Dib, por incrível que pareça, trouxe novidade até para mim, que tinha pouca esperança de deparar-me com alguma novidade. Afinal, depois de ler o livro 2 vezes e ver o filme por 5!!!!... Mas, surpresa, Dib fez um trabalho que mostra o quão fértil é o livro do Drauzio. Misturou histórias/personagens, tirou o médico de cena, foi mais "bárbaro" que o médico-humanista que é Dr. Drauzio, abriu espaço nobre para duas travestis com palavreado riquíssimo-barra pesada, etc, etc. Gabriel Villela nadou de braçada.
Maria do Rosário Caetano
(fanzine Almanaquito)
O texto do adaptador Dib Carneiro Neto - maduro, consciente, e desprovido de qualquer sentimentalismo banal - encanta o público e flui na boca dos excelentes atores , mostrando riqueza idiomática e conhecimento da gíria pertinente de cada personagem, que valoriza ainda mais cada cena e palavra dos monólogos. Gabriel Villela, diretor inteligente, experiente, concebe uma montagem despojada, nua, emocional - feliz parceria desses artistas que envolvem a platéia no sentimento de cumplicidade com aqueles já condenados em vida.
Meu destaque na peça é para os atores - em especial Pascoal da Conceição, que recebe como presente dois personagens fascinantes e nos presenteia, a cada cena, com uma aula de interpretação. Um dos personagens chama minha atenção - "O Velho Valdo" que, no melhor estilo de Grotowsky, exigiu do ator a sua entrega incondicional, transformando-se num velho de 70 anos, despido de maquiagem, figurinos, munido unicamente de sua arte para nos deliciar.
Pamela Duncan,
jornal Ponto de Vista
Neste espetáculo, não há moralismo, julgamento, questionamento... É a dor escorrendo pelas palavras de uma forma tão caudalosa, que não há como ser rotulada... Mais dor? Menos dor? Qual a condição daqueles seres humanos? Ratazanas de um bueiro? Não... não cabe nada disso... É um texto com poder invertido, que, em vez de invocar graças, revela as desgraças... Salmo 91 nos leva novamente para o teatro em sua plenitude: o elo com o sagrado... que não se rompe... o fio de prata que nos liga ao conhecimento.
Alcides Nogueira
escritor, dramaturgo e autor de novelas e minisséries
"Foi uma surpresa contundente, para mim que sou gato escaldado nas águas do livro do dr. Drauzio Varella, ter assistido à montagem que o Gabriel Villela fez do texto do jornalista Dib Carneiro Neto. Encontrei na minha experiência de espectador uma leitura nova, dinâmica e profunda, que me fez em todo instante me esquecer que um dia, há não muitos anos, eu adaptei da mesma fonte um filme chamado Carandiru."
HECTOR BABENCO, cineasta
(Caderno 2, do Estadão)
"O grande mérito do Dib Carneiro Neto foi escrever um texto que respeitou não apenas o conteúdo do meu livro, mas as características dos personagens, da prisão e, especialmente, a linguagem dos presos para criar uma polifonia de forte conteúdo dramático."
DRAUZIO VARELLA, autor do livro Estação Carandiru
(em depoimento para o Caderno 2, do Estadão)
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